top of page



Visita à Casa das Fiandeiras
(crônica sobre o dia em que descobri que certos fios escolhem a gente antes de serem tecidos) Acordei com Hécate animada, e esse detalhe, por si só, já me deixou alerta. O humor de uma deusa costuma anunciar que algum ponto do meu espírito será puxado até revelar um aprendizado que o mundo, por razões estéticas e um capricho universal, nunca se deu ao trabalho de ensinar. “Arrume-se” , ela disse, enquanto ajeitava um feixe de fibras secas sobre a mesa. “Hoje visitaremos as Fi

Katy Frisvold
17 de dez. de 20257 min de leitura


O Destino Começa na Pia
(Crônica de um dia em que Hécate cansou da minha preguiça e resolveu dizer a verdade) Acordei pesada. Não era tristeza, tampouco algum presságio, apenas aquela preguiça densa que se instala no corpo como neblina. Tudo parecia mais longe do que realmente estava. Levantei porque a vida exige pequenos gestos, mesmo quando não temos vontade de nada. Levantei por obrigação e fui cuidar das pequenas coisas. Lençóis, chão e louças. Coisas que organizam o mundo quando o mundo interno

Katy Frisvold
17 de dez. de 20253 min de leitura


Aquilo Que Me Deu Sentido
(Crônica de um dia em que ficar foi tudo) Eu não estava cansada do mundo. Eu estava cansada de continuar funcionando sem saber mais para quê. Nada tinha ruído. Era isso que me apavorava. O corpo obedecia. O trabalho rendia. As palavras vinham quando eu chamava. As mãos repetiam gestos antigos com precisão. Tudo operava. Nada pesava. O altar estava arrumado demais. Quando percebi isso, Hécate já estava sentada no chão, diante de mim, sem anúncio, sem espetáculo, sem gentileza

Katy Frisvold
8 de dez. de 20255 min de leitura


A Arte de Caminhar sem Mestre
O chamado que dá origem à Stella Existem mudanças que começam com incômodos delicados. Um peso que se instala nas margens dos dias, uma leve exaustão diante de explicações que já não convencem, um pressentimento de que o caminho que sustentamos até agora já não corresponde ao tamanho da vida que carregamos. A maioria tenta ignorar esse chamado, mas ele retorna nos silêncios que se alongam e nos rituais ocos. O chamado retorna cada vez que tentamos nos encaixar em estruturas q

Katy Frisvold
1 de dez. de 20258 min de leitura


Um consolo na floresta
(uma versão tropical de “A Conferência dos Pássaros” de Farid ud-Din Attar) Hécate estava ajoelhada na clareira, perto do barranco, recolhendo raízes escuras que só crescem em solo que já carregou dor. Tocava a terra com familiaridade, mexendo nos tufos de erva como quem reconhece histórias antigas guardadas ali. Não havia pressa nos gestos. Era o ritmo de alguém que já viu a mesma cena humana se repetir muitas vezes, como um ciclo que insiste em ignorar seus próprios sinais.

Espelho de Circe
28 de nov. de 20255 min de leitura


O Voo Noturno
Hécate ergueu o olhar, não na minha direção, mas através, e naquele instante tive a sensação de ser atravessada por uma pergunta sem forma

Katy Frisvold
9 de nov. de 20255 min de leitura


O Fetiche da Bondade
Tem bruxa que jura fazer cinco rituais por dia, quando na verdade passou a tarde dormindo no sofá. Mas dizer que descansou parece feio. A preguiça virou pecado de pobre.

Katy Frisvold
5 de nov. de 20254 min de leitura


O Bem que Mata
(crônica sobre o amor que mata em nome de Deus) Naquela manhã o vento vinha pesado, cheirando a ferro e incenso queimado. O céu tinha o tom de chumbo das notícias ruins. Eu estava recolhendo lenha para o fogo quando ouvi Hécate murmurar, quase num sussurro de pedra: “Eles continuam matando em nome do amor.” Parei. A frase ficou pendurada no ar, como uma lâmina prestes a cair. A velha não falava de ontem. Falava de todos os tempos. Hécate tem esse dom: diz as coisas simples co

Katy Frisvold
3 de nov. de 20254 min de leitura


A Gralha Riu Primeiro (parte 2)
Parte II - O eixo A Gralha pousou no chão, caminhando com aquele andar desequilibrado de quem carrega um segredo nas patas. “Eles gostam das meninas”, disse, com uma crueldade calma. “Das que ainda acreditam no encanto das promessas e que sorriem por reflexo. As mais novas ainda não viram o suficiente para desconfiar.” Fiquei em silêncio. Ela tinha razão. Muitos homens - e aqui não falo apenas dos velhos - preferem a inocência por conforto, não por amor. Procuram nelas o ref

Katy Frisvold
28 de out. de 20255 min de leitura


A Gralha Riu Primeiro
A Gralha é insolente. Ela é dessas criaturas que preferem a verdade nua ao verniz da civilidade. Ela tem esse tom desagradável, de quem já viu muita coisa e não tem mais tempo para sentimentalismos. E eu gosto disso nela. Ri alto, como se cada riso fosse um corte no tecido da paciência humana.

Katy Frisvold
28 de out. de 20253 min de leitura


Quem matou Asherah?
Não é “por que Deus mandou”. É quem precisou, e para quê. Entre Babilônia e o zelo doméstico, Asherah caiu. Com ela caiu um mundo de práticas femininas. A lei virou bala. Depois virou doutrina. Herdamos o eco.

A Velada
14 de out. de 20255 min de leitura


Entre Sombras e Companhias: o Familiar e o Corpo-Sombra da Bruxa
Quando a noite se instala e o mundo desacelera, algo permanece acordado. É uma presença que não se anuncia com barulho, que não bate à...

A Velada
25 de ago. de 20256 min de leitura


"Bruxaria folclórica": uma boa ideia mal formulada
Poucas palavras carregam tanto charme hoje em dia quanto “bruxaria folclórica”. Quem ouve pensa logo em sabedorias ancestrais, práticas...

A Velada
4 de jun. de 20254 min de leitura
bottom of page
